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Em algum lugar de mim

terça-feira, 1 de setembro de 2015
Acordei no meio de uma floresta, as árvores eram altas demais, não dava pra ver o que tinha fora daquele lugar. Eu estava confuso, não sabia onde estava e não lembrava do dia anterior, nem do dia antes do anterior. Assim caminhei na direção que os raios de sol adentravam entre aquelas folhas. Caminhei longos minutos, quem sabe horas até que encontrei um riacho de águas muito calmas. Estava morrendo de sede e aproveitei para matá-la. Pus-me na beirada para tomar a água e acabei perdendo o equilíbrio. A água estava fria, mas ali fiquei, dentro dela por alguns minutos, a sensação era boa, parecia que estava me limpando de algo.

Imagem: https://filosofiaem3minutos.wordpress.com

Decidi continuar minha caminhada, não sabia mais qual era a direção que estava indo, pois não via  mais raios de sol, elegi um direção e continuei andando. Andei até que vi um clarão a frente, seria a saída? Corri contente e realmente era o fim da floresta densa e escura em que estava. Mais logo me desesperei porque a frente estava um grande campo verde que se perdia nas curvas das montanhas. O céu estava nublado, o frio aumentava e uma brisa começava a cair. Eu fiquei na beirada da floresta, enquanto escurecia e acabei dormindo.

Quando abri os olhos novamente, estava em casa. Mas como pode? Seria tudo aquilo só um sonho? Parecia tão real e irreal ao mesmo tempo. Olhei pela janela do meu quarto, estava nublado e o frio era igual ao do sonho. Levantei, tomei café e me aprontei para ir à universidade. Seria mais um dia de estudo, o bom é que as férias começariam em breve, mais uma semana e eu poderia descansar um pouquinho. No caminho, não vi ninguém, nem no mercadinho que sempre abria cedo. Ainda estava muito nublado e o vento deixava tudo mais frio. Me senti sozinho, será que alguém iria pra universidade? Chegando nela, andei pelos corredores até a minha sala. Ainda não havia ninguém nela. Esperei alguns minutos e como ninguém chegava, decidi ir até os banquinhos esperar. Sentei nele e esperei, esperei bastante, será que esqueceram de me avisar que naquele dia não haveria aula? Me perguntava isso enquanto pensava naquele sonho, até que chegou uma mulher e sentou ao meu lado. Era ela, só podia ser ela, a que eu gosto. Puxa vida, até na minha estória ela teria que estar? Mas eu fiquei feliz por alguém aparecer. Tentei falar algumas coisas pra ela, mas não conseguia, minha voz não saía. Olhei-a fixamente, ela estava pálida, sem nenhuma expressão no rosto, parecia não estar me vendo. Eu não acreditava no que acontecia, queria falar, queria que ela me olhasse e me dissesse um "oi" como ela sempre faz. Desisti de falar, apenas fiquei ali com ela naquele banco.

Ficamos uma hora ali, o céu cada vez mais escuro,anunciava uma tempestade, mas eu nem ela saímos do banco. Por quê? Eu queria estar ali e ao mesmo tempo queria estar em um lugar bem distante dela. Começou a cair uma chuva grossa, cada gota era como um golpe nas costas. Estávamos nos molhando e nenhum dos dois se importavam com isso. Eu pensava em um monte de coisas, até que ela segurou em minha mão. De repente nada mais importava, todos os meus pensamentos se foram, eu já não ouvia chuva, nem a sentia. Caí no sono e adormeci ali mesmo.

Acho que dormi muito tempo, tive uma sensação boa, o tempo parecia ter parado e todos desaparecidos. Quando acordei estava de novo perdido nos meus pensamentos. Pena que não foi só neles, de novo apareci naquela floresta. O sol brilhava forte, me convidava para levantar e explorar aquele campo, a descobrir o que tinha além daquelas montanhas. Eu já não sabia se estava sonhando, se estava delirando ou se estava morto, o que sabia é que estava sozinho no meio do nada verde.

Caminhei e cada vez que olhava para trás, mas pequena via a floresta. Subia a montanha e ia criando teorias. Nelas eu me questionava sobre o que estava acontecendo. Bom, sonho isto não pode ser, porque nos sonhos, as coisas são cortadas, não há uma sequencia lógica e como até aquele momento nada foi cortado, então tudo era real, conclui. E em relação a minha localização, não fazia ideia, talvez eu estivesse na Indonésia, ou em algum outro lugar do mundo que tenha florestas densas, muitas montanhas e um clima frio. O final da montanha estava cada vez mais perto.

Eu não lembrava de nada, do antes. Só sabia que tinha levantado no meio de uma floresta. Mas parecia que eu sabia de algo ou que fugia de alguém. O sol estava no meio do céu e eu finalmente cheguei ao cume, pude olhar para o horizonte e o que vi foi só montanhas e montanhas. Eu tinha fé que encontraria algo a mais, mas não, sentei ali mesmo, triste e cansado, deitei e cobri a cabeça com as mãos para que o sol não me cegasse. O que fazer agora? Onde eu estava? De repente, contra o sol, aparece alguém,  olhando pra minha direção, eu não conseguia ver seu rosto, pois a luz do sol não me deixava, eu não sabia se era uma ilusão, ou outro sonho maluco, fiquei sem ação, até que este alguém falou comigo, não entendi, levantei e pude ver seu rosto. Adivinhem quem era? Não, não era a moça do banco. Não sei, realmente, se fiquei feliz ou triste por não ser ela. Era uma mulher desconhecida e estava falando comigo. Só podia ser milagre.

Só podia ser outro sonho. Afinal, sonhamos com cada coisa maluca, estranha e impossível. Eu, no meio do nada e uma mulher desconhecida falando comigo. Éramos um ponto pequeno na imensidão daquele campo de montanhas. Eu não entendia o que ela falava, parecia que era em outra língua. Minha teoria de que eu estava em algum lugar da Indonésia só aumentava por causa disso. Ela começou a andar numa direção e eu a segui. Pensava comigo, certamente ela deve ser de algum povoado e se eu a seguir poderei encontrar alguém que fale português ou espanhol, ou até inglês.

Andamos bastante, parecia não ter fim nossa caminhada. Eu comecei a reparar nela, era muito bonita. Tinha uns olhos muito vivos e profundos. Seus cabelos eram longos e o vento os balançavam. De repente ela parou de andar, olhou fixamente para mim  e eu, sem saber o que fazer ou dizer, fiz o mesmo. Olhei direto nos seus olhos, o vento aumentou, ela se aproximou de mim e me abraçou. Foi algo inesperado, nunca eu tinha recebido um abraço tão forte e tão expressivo. Por um momento, pensei ter entendido tudo o que ela tinha dito e feito, pareceu que eu conseguia ver o que ela estava vendo, o vento aumentava e cada vez mais eu tinha certeza que queria estar ali, naquele exato momento com aquela desconhecida, ela me fazia bem, não sei se eu também fazia bem a ela, mas ficamos abraçados enquanto o vento cantava aquela música. O tempo parecia ter parado, mas quando o vento parou, tudo desapareceu. Naquela hora, o meu tudo era ela, ela desapareceu, o verde se tornou cinza, o dia, noite. Senti muito medo e frio, não podia ver nada, nem sentir o chão.

Acordei de novo, eu não podia acreditar, estava em casa mais uma vez. Lembrei de tudo o que aconteceu. Será que eu escapo dos lugares quando a situação se complica? Quem era aquela mulher? Por que ela desapareceu? Lembrei que eu estava na universidade no dia anterior, lembrei da chuva, daquela que gosto, de nós. O que teria acontecido? Me arrumei apressadamente, nem tomei o café direito e fui para a universidade. Entrei na minha sala atrasado, a professora me olhou com uma cara, sentei perto da janela e olhei para onde aquela que gosto senta. Parecia que nada tinha acontecido, ela estava normal, todos estavam normais. Perguntei ao meu amigo por qual motivo ele não tinha vindo na aula anterior. Ele, espantado, me disse que veio sim, que eu que não tinha vindo. É claro que eu vim, estava chovendo muito, eles que tinham se atrasado.

Neste momento a professora me interrompeu e perguntou se eu poderia apresentar meu trabalho marcado para hoje. Mas que trabalho? Pensei eu. Parecia que ela leu meu pensamento, pois me disse que a minha parte que compreendia a literatura era muito importante para o que estávamos estudando. Lembrei então que meu trabalho era sobre a literatura pós guerra dos países que participaram das guerras mundiais. Nossa, eu não tinha feito o trabalho, não havia estudado e preparado nada, nem os slides, mas como valia nota, me levantei e fui até a frente da sala.

E agora, o que eu falaria? Estava muito nervoso, comecei a suar, olhei pra todo mundo e todo mundo estava me olhando. Fechei os olhos, quem sabe aquilo era um sonho também, eu poderia acordar a qualquer momento, mas não, não era sonho. Abri os olhos e comecei a falar.

"Eu já me vi numa guerra, assim como também já me vi preso, já me vi jogando futebol e essas coisas. Mas nunca com o mesmo olhar que os outros. Parece que a maioria, quando se fala em guerra, vê as armas, a defesa da pátria, os guerreiros que lutam pelo seu país, que dão seu sangue para a soberania de seu povo. Eu não vejo assim, como também não vejo o futebol como um patriotismo. Não me acho mais patriota ao torcer pelo Brasil numa Copa do Mundo, não mato nem morro por um time, não, eu não sou assim. Eu vejo isso como besteira. Eu nem sei o que é patriotismo, talvez um simples bom dia pro vizinho, ou para os mais velhos seja patriotismo. Um sorriso ou ajuda a uma criança que está dando seus primeiros passos neste mundo seja patriotismo. Voltando às guerras, nenhum país tornou-se soberano ao vencer uma batalha. Ou o que é soberania? Ver um país totalmente destruído por armas pesadas, mães e esposas que viram seus homens ir e nunca mais regressar, não podendo nem devolver à terra quem um dia saiu dela? Ver que anos depois, países pós guerra nunca mais voltaram a ser o mesmo de antes. Não preciso citar exemplos, vocês mesmos sabem dos países que sofreram guerra e como eles estão hoje. Infelizmente, encontramos muitas obras que se dizem históricas, mas que não passam de contos. A versão dos vencedores prevalece e essas se tornam verdades absolutas. São essas versões que são ensinadas aos nossos alunos. Por isso faz-se necessária a leitura da literatura destes países, pois nelas estão mais fatos históricos do que nos próprios livros de história. Encontrei numa obra um trecho muito interessante. Dizia assim: "naquele dia, vi o guerreiro mais valente da nossa aldeia chorar ao ver seu filho morto em batalha, ele largou sua lança, virou as costas pro inimigo e foi atingido por uma bala de fuzil, ele caiu ajoelhado, conseguiu virar-se e antes que pudesse ver seu filho morto, outra bala lhe cegou." Esta obra não tem nome e o autor é desconhecido, mas retrata a realidade daquele país, ou melhor, daquele povoado que lutou com lanças e espada contras armas. A diferença foi tão grande, que um guerreiro, que jamais desiste de uma batalha, cedeu. Obrigado pela atenção"

Falei isso e me sentei. A professora me olhou com uma cara, não sei se tirei cem ou zero, mas pelo menos eu disse alguma coisa. Meu colega me parabenizou pelo que eu disse, mas não sei se ele foi verdadeiro. Outros colegas apresentaram até que o intervalo chegou. Eu nem saí da sala, estava com sono, abaixei a cabeça na carteira e esperei o silêncio chegar. E chegou, mas foi interrompido pelo "oi".  Eu conhecia muito bem essa voz e estava mesmo com vontade de ouvi-la. Levantei minha cabeça e não vi ninguém, só estava eu na sala. Acho que eu imaginei aquela voz, queria ouvi-la.

Realmente não havia ninguém na sala. Eu estava sozinho, mas logo os meus colegas foram voltando do intervalo e o silêncio foi substituído por várias vozes. Não dava pra entender nada, todos falavam muito e rápido. Mas eu não queria entender mesmo, queria que a aula acabasse logo para poder ir pra casa.

Pensava em muita coisa ao mesmo tempo, não conseguia me concentrar em nada e assim a aula acabou. Saí meio corrido e ao passar pela porta, a mulher que gosto me chamou para conversarmos sobre o que tinha acontecido no dia anterior. Eu nem lembrava direito, recordava do banco, da chuva e de nós dois sozinhos. Ela também lembrava só disso, mas não sabia o que tinha ocorrido depois, só lembrava que tinha acordado no outro dia de manhã. Eu falei a mesma coisa, mas eu não estava muito preocupado com isso, pensei, um dia nos lembraremos.

Fui pra casa, tomei um banho e fui pro computador terminar uns exercícios. Depois que entrei na universidade, peguei um hábito não muito bom, o de dormir de dia, antes era impossível, agora, é só começar uma leitura de umas daquelas pequenas apostilas para eu começar a cochilar. E não deu outra, comecei a dormir na cadeira mesmo e sonhei. Os sonhos são criações interessantes nossas. Eu lembro do filme "A origem", em que os personagens arquitetavam os sonhos. Assim são os meus sonhos, eu crio cenários incríveis, sempre baseados em lugares reais, como a casa que eu morava em outra cidade, ou meu antigo colégio e às vezes até mesmo a universidade. São parecidos aos originais, mas sempre tem algo de diferente.

Sonhei que eu estava na minha antiga casa, vendo televisão e do nada comecei a sentir uma forte dor, olhei para minha barriga e vi que eu tinha levado um tiro, perdia tanto sangue que cheguei a conclusão que morreria. Não tinha nada que eu pudesse fazer, estava decidido no meu consciente que eu morreria naquele dia. Eu já não sentia dor, precisava me despedir dos meus amigos, encontrei alguns, avisei o que aconteceria, uns choraram, outros acharam besteira, pensavam que ainda havia solução, mas eu os falava que eu morreria, que eles não precisavam ficar tristes. Aos poucos minha casa foi enchendo, ela estava bem diferente, neste momento não parecia minha antiga casa nem a atual, mas me era familiar. Estavam todos meus conhecidos e eu falava com todos, planejava algumas coisas pra fazer com eles futuramente, mas acabava me lembrando que eu não estaria mais ali.

Eu não sabia o que sentia. Estava alegre com a presença de todos, me perguntava por que antes nunca reuni o pessoal pra uma reunião assim, um encontro de amigos. Todos foram muito legais comigo, eu só não queria que eles sentissem pena de mim, eu estava feliz por fora, mas por dentro, só eu sabia o que sentia. Será que alguém realmente se importava? Hoje em dia só reunimos a galera numa festa ou num enterro. Parece que ninguém quer ficar perto de ninguém, nem dos amigos. Eu nem sabia se eu tinha um melhor amigo, ou se alguém me tinha como melhor amigo. Naquele momento, aquelas pessoas estavam ali por mim. Eu queria discursar alguma coisa, ou contar algo, algum segredo ou coisa assim, mas não tive coragem. Procurei algumas pessoas, mas nem todos que queria estavam ali.
Meu ar estava acabando, não escutava direito, a música foi ficando cada vez mais baixa e eu queria olhar pela janela, o sol estava se pondo. A festa acabou, algumas pessoas quiseram ficar, mas eu pedi que fossem embora.

O fim estava próximo, tudo era mais escuro, mais silencioso até que ouço uma música conhecida bem alta tocando perto de mim, tento ver o que era e consigo descobrir que era meu celular. A música se chamava "Trust me baby I love you" e geralmente tocava no  meu celular quando alguém ligava pra mim. Eu tentei atender, mas o botão não funcionava, parecia que minhas forças tinham acabado. A música acabou, alguém me ligou, talvez para um "adeus" e eu nem pude contestar.

De repente a música toca de novo, agora mais alta e eu acordo. Era um sonho, vejo que não estava morrendo e percebo que meu celular estava tocando de verdade.

O celular tocava, era um número desconhecido pra mim. Atendo e ouço uma voz fraca. Reconheci na hora de quem era, me pedia pra encontrá-la cedo no dia seguinte, iria me dizer algo muito importante. Fiquei ansioso o final do dia inteiro. Enfim, na manhã seguinte, bem cedo já estava na universidade, naquele mesmo banco, com aquele mesmo frio e sem quase ninguém no lugar. Ela chegou séria, sentou-se ao meu lado e me abraçou. A partir deste momento eu já sabia que meu dia mudaria de vez. Lágrimas me faltariam pra expressar o que sentiria no resto daquele dia e nos próximos. Ela ainda não tinha dito nada, mas eu sentia no seu abraço o que estava por vim. Naquele momento era só eu e ela, sentia seu coração bater próximo ao meu, sentia seu respirar. O sol estava nascendo e o primeiro raio de luz fazia da nossa sombra a última foto de nós dois juntos, ali sentados. Sem uma única palavra, eu sentia o que ela sentia, eu sabia que seria bem difícil para ela falar, mas insisti. Fiz várias perguntas, mas ela apenas me olhava. Estava sem maquiagem, mas isso não me importava, assim eu pudia ver como ela realmente estava. Fiz mais perguntas e como forma de responder, ela me abraçava mais forte. De repente, ela me soltou, levantou-se e se foi. Ainda ao longe, olhou para trás, me deu um sorriso disfarçado e desapareceu. Nunca mais a vi e mal eu sabia que muitos dias viriam e eu não teria mais nenhuma notícia dela.

Será que o tempo faria um bom trabalho desta vez? Ele sempre nos faz esquecer coisas, sejam elas boas ou ruins. O tempo até tentou, mas eu não queria esquecê-la. Eu pensava que aqueles abraços que ela meu deu no último dia que nos vimos era um pedido para que eu não a esquecesse, passasse o tempo que passasse, que eu sempre a tivesse no meu coração. Ela queria morar nele, mesmo não me deixando morar no dela. Seria isso um egoísmo? Não sei, só sei que era isso que eu fazia.

***

Muito tempo se passou. Eu estava muito ansioso, pois faria dez anos de casado. A data foi muito esperada por minha mulher. Fomos ao restaurante no centro da cidade. Tinha pouca gente nele. Levei ela até lá e falei para que me esperasse um pouco. Voltei e lhe entreguei o buquê de flores, falei-lhe como estava bonita, como tudo estava perfeito. Ao nosso lado tinha uma janela grande, só com um vidro, que dava para ver tudo lá fora. No céu, uma lua cheia nos brindava com sua beleza. Perguntei-lhe se ela estava feliz, muito feliz ela estava e eu? Me perguntou, e eu, como estava? Lembrei de tudo, tudo o que podia lembrar, como a conheci, como começamos a namorar e até quando a pedi em casamento. Ah, eu estava muito feliz, a vida estava me ensinando a ser feliz sempre. O passado já passou, podemos cuidar só do presente e se preocupar com o amanhã não resultaria em nada.

Depois da janta, fomos pra casa. Eu estava morto de cansaço, o dia no trabalho me sugou todas as minhas forças e como já era tarde, muito tarde pra mim, fui pro quarto. Deitei na cama e apaguei. Nunca tinha dormido tão bem. Acabei sonhando com aquele dia, com o restaurante, com nossa conversa e com a lua, que não estava mais cheia. Estava bem pequena de cor amarelada. Olhei para o céu ao redor dela e não vi nenhuma estrela, tudo era bastante escuro. Parecia que estavam apagando tudo, no restaurante só a minha mesa tinham luzes acesas, minha esposa tinha ido ao banheiro e estava demorando pra voltar. Uma sensação de estar sozinho me veio forte, eu não conseguia ver mais nada além daquele pequeno espaço que estava sentado. Esperei bastante tempo, até que ouvi passos, minha esposa parecia voltar, eu falaria pra ela para irmos embora, pois o ambiente estava muito sinistro para uma noite romântica. Mas não era ela, eu não conseguia me mexer, nem olhar pra trás para ver quem era, só escutei uma voz baixinha, não entendi o que ela falou. Tentei me virar, mas acabei acordando.

Já era manhã, o sol nascia e eu tinha que me arrumar para ir ao trabalho. Me troquei rapidamente e me pus a caminho. Não conseguia esquecer o som daquela voz. Me era conhecida, mas olvidada. Eu tentava lembrar e ao longe, percebo uma moça vindo, eu estava na rua a pé, pois o local onde trabalhava era perto de casa. A moça se aproximava cada vez mais. Era baixinha, morena, tinha cabelos longos, não sei porque, mas eu reparei bem nesses detalhes, flashes vieram a minha cabeça, eu estava me lembrando de alguém do passado, mas não conseguia distinguir quem era esse alguém.

Cheguei ao trabalho, minha cabeça parecia explodir de tantas recordações. Me lembrei de um sonho antigo que tive e acabei lembrando que aquela moça estava neste sonho. Mas não tinha sentido isso. Eu poderia estar criando uma situação, era muito estranho, eu não conseguia me concentrar no trabalho e por isso sai mais cedo. No caminho de volta pra casa, de novo encontrei a moça vindo na minha direção. Era ela, só podia ser a daquele sonho. No outro lado da rua, vi minha mulher, que também estava vindo pra minha direção, só que estava bem atrás. Eu parei, muitas imagens vieram à minha cabeça, eu olhava para a mulher, me vinham lembranças, episódios de minha vida que pareciam que não vivi, olhava pra minha mulher e agora a via estranha, não a estava reconhecendo.

Eu me abaixei, sentei na calçada, minha mulher veio correndo ao meu encontro e me perguntou se eu a amava. Mas que pergunta, estamos casados há dez anos, como ela pode duvidar que eu a... E não consegui falar, eu não sabia o que dizer, eu a olhei nos olhos, busquei neles as palavras certas e o que consegui dizer foi "não". Eu não estava acreditando no que estava acontecendo, eu não a amava. Mas como? No dia anterior estávamos comemorando, felizes falávamos sobre muita coisa. E naquele momento, eu já não a conhecia. Ela saiu correndo e desapareceu no final da rua. A outra mulher, a que parecia a do sonho antigo chegou ao meu encontro e me perguntou se estava tudo bem comigo. A voz dela me agradava. Parecia que me puxava para dentro de mim. Cada vez que ela falava, minha visão ficava mais clara, eu a olhei por alguns instantes enquanto tudo ficava branco.

O que estava acontecendo? Eu me perguntava e não tinha resposta. Estava tudo branco, eu não conseguia nem me ver, mas ouvia um barulhinho de água caindo. Este barulho foi aumentando, ouvi trovões, comecei a sentir águas caindo sobre os meus ombros, a cada gota, parecia um golpe que estava querendo me acordar. Pois é, eu só poderia estar sonhando, ou melhor, tendo um pesadelo.

Mas não, aquilo era real, minha visão estava voltando, já conseguia me ver e percebi que estava sentado num banco molhado. Chovia muito e eu estava sentado naquele banco debaixo da chuva. Por que eu não saia dali? Eu tinha um motivo? Olhei ao meu redor, o lugar era familiar, parecia a minha antiga faculdade. E era, era onde me formei, eu não fazia ideia de como fui parar ali. Olhei pra o meu lado e vi a mesma menina que estava sentada comigo tempos atrás, também debaixo da chuva. Agora eu sentia a mão dela na minha, parecia que estávamos a muito tempo assim. Ela me olhou e foi como se tudo voltasse para mim. As coisas agora fizeram sentido. Ela estava comigo naquele banco desde o início. Tudo o que se passou foi um sonho, sonhos dentro de sonhos. A realidade começava ali, naquele banco, debaixo daquela chuva. Eu ia me levantar e levá-la junto comigo para outro lugar, mas ela me segurou e me disse para ficar. Mas por quê? Está chovendo e estamos nos molhando, não podemos ficar aqui. Ela simplesmente me olhou e não precisou me dizer mais nada.

A chuva não parou, ninguém mais apareceu. o tempo parecia ter parado para os outros. Pra gente, eu e ela, o tempo era aquele presente. O que nos unia era aquele lugar, aquele momento. Se eu me levantasse, tudo poderia se desfazer. As coisas sairiam do nosso controle.

Ah, quando essas respostas me vieram, eu aceitei a situação. Respostas que não precisaram de perguntas. Eu queria estar com ela ali, não queria sol, queria aquela mesma chuva pra sempre. Aquele tempo não poderia parar.

Fim (Joanir Rocha Pidorodeski)

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