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A loira da biblioteca

sexta-feira, 6 de maio de 2016
Esse seria apenas mais um conto de terror corriqueiro popular se apenas fosse um conto. Mas não, as frases a seguir retratam com total fidelidade literária fatos presenciados por mim, este narrador bonitão e real que sou.

Uma biblioteca assustadora com o espítito de uma moça
A loira da biblioteca

Era noite. Sempre é noite em contos assim. Isso faz o medo ser maior. Mas quem disse que eu fiquei com medo né? Fiquei não. Eu estagiava na biblioteca da universidade aqui da cidade. Tinha um acervo enorme todinho pra mim. Eu cuidava da organização dele, além de auxiliar as calouras na busca por livros. Eu era bom no que fazia, modéstia a parte. Muitos amores platônicos instantâneos surgiram entre um índice e outro. Notem que fiz um jogo de palavras na frase anterior pra dar um ar mais profissional pra esse conto.

Pois bem, naquela noite as coisas estavam escuras. Chovia. Trovoava. Um cenário perfeito pra qualquer história de terror. Mas eu já estava acostumado com isso. Chuva é o que não falta na cidade, e elas aparecem ou se intensificam principalmente na hora de ir embora, isso é uma coisa a ser estudada.

E nesta hora de despedida dos livros e de uma ou outra caloura que estava ali ouvindo minhas sábias palavras de orientação, senti um vento estranho vindo do sul. Era a janela que estava aberta. Se a chefe visse que eu deixei uma janela aberta perto do acervo de livros numa noite de chuva forte, eu iria levar um belo e feio xingarão. Corri até ela, após dar tchau a moça e tratei de desligar as luzes do local.

Isso era normal. Eu apagava quase todas as luzes, mas deixava algumas acessas para facilitar o trabalho dos vigias que perambulavam pela noite pelos campus. Me dirigi ao balcão, onde as colegas de trabalho já me esperavam atônitas.

- Não quer ir embora não?
- Quero sim! - Respondi, mas na verdade, o assunto tava legal com a Jussara (a caloura que já falei nos parágrafos acima). Bom, provavelmente o nome dela não era Jussara, eu não me lembraria dessa informação. Mas, vamos chamá-la assim.

Fechamos a porta, obviamente depois de termos saído da biblioteca, senão ficaríamos presos lá dentro. Tá prestando atenção, né, caro leitor?

A chuva era intensa. Nos dirigimos para o prédio de medicina, que ficava ao lado da biblioteca, pois lá, bateríamos o cartão de presença. Cartão batido, a chuva aumenta mais. Era um barulho alto demais. Leitor, perceba que estávamos no prédio de medicina. No terceiro andar dali, tinha os cadáveres usados para estudos. Mas isso não me intimidava, embora eu nunca tenha me habilitado a ir nesse andar, pois tenho alergia (oportuna) ao formol.

Definitivamente, ficamos impossibilitados de sair dali, enquanto a chuva caiu com muita vontade. E eis que aparece uma loira tagarela. Sério, uma mulher que aparentava ter seus quarenta anos surge não sei de que corredor lá de dentro e vem ao nosso encontro. Começa a falar. Falava muito! E nós, não ouvindo nada por conta da chuva, apenas acenávamos com um "sim".

A chuva diminui e apostamos em ir pra biblioteca novamente utilizar o telefone da chefe. Saímos correndo e quando ficamos na frente da porta, reparo que as luzes que eu apaguei estavam acesas. Note, a biblioteca era grande, tinha dois andares. Só que no meio dela, havia uma grande área que ocupava os dois andares. As luzes ficavam no alto, no teto. Não sei por qual motivo elas se acenderam, mas por sugestão não democrática, eu fui encarregado de subir no segundo andar pra desligar essas luzes, enquanto uma de minhas colegas se dirigiria ao telefone pra ligar pra mãe dela vir nos buscar.

Eu, como sujeito corajoso, e após vinte apelos delas, subo aquela rampa circular. Até o terceiro passo estava tudo bem, mas faltavam ainda alguns poucos muitos passos até eu chegar ao interruptor. Seria fácil se não fosse difícil. No meio do caminho, havia não uma pedra, mas sim um periódico. Periódico é um local da biblioteca em que ficam guardados os TCCs dos formandos, além de, na nossa biblioteca, ter uma sala onde ficam os arquivos mortos (livros velhos causadores de doenças respiratórias). Há uma lenda, que estou criando agora, que nos periódicos estão guardados todos os sentimentos de dor dos formandos na confecção de seus respectivos TCCs. A cada passo, mais perto eu estava dele, e a lenda se fazia mais presente em meus pensamentos. As portas de acesso, que sempre estão fechadas, nesta hora estavam entreabertas. Eu passei igual um foguete que explode logo o seu lançamento. Cheguei no interruptor, desliguei as luzes novamente e, não querendo estar mais ali, desci correndo, quase voando direto pra porta da biblioteca. Nota: isso não era medo, era apenas eu testando minhas habilidades de correr em ambiente hostil.

Com minhas colegas lá embaixo, ficamos esperando a mãe de uma delas chegar. A chuva diminuía aos poucos. Enquanto isso, lembrei do livro que a Jussara estava procurando naquela noite momentos antes. Era uma obra de Gil Vicente chamada O Auto da Barca do Inferno. Olha o nome da obra. Não sei pra que eu fui lembrar. Interrompendo meus pensamentos, ouvimos a buzina. A mãe da minha colega havia chegado.

Lá fora, desviando da chuva e pisando no barro (eis aí uma sugestão de nome pra próxima novela das sete da Globo), nos dirigimos para o  carro no estacionamento. Chegando perto dele, a mãe da minha colega indaga:

- Vocês vão deixar a moça lá dentro?
- Que moça? - Pergunta espantada a minha colega.
- A loira que está lá perto dos livros.

Olhei, não querendo olhar, para aquelas janelas da biblioteca e torci para que não fosse sugerido não democraticamente de novo que eu voltasse lá para ver se tinha alguém. Era uma loira, e só isso já seria assustador. Mas, naquela noite, a potência do medo estaca altíssima. Minha colega volta pra biblioteca, e eu vou atrás, infelizmente. Abrimos a porta e lá do balcão mesmo, gritamos perguntando se não havia  ninguém ali. Felizmente não ouvimos resposta. Se eu ouvisse um "a" qualquer, não ficaria ali pra saber o que aconteceria depois. Voltamos para o carro e seguimos viagem para casa.

Até hoje, não sei ao certo o que aconteceu naquela estranha noite. Mas os fatos parecem ter ligação: Jussara com a obra infernal; a loira misteriosa que apareceu no prédio de medicina e não parava de falar; as luzes da biblioteca que se acenderam sozinhas e a suposta loira que a mãe da minha colega havia visto lá dentro.

Seria essa loira a mesma loira que apareceu pra nós anteriormente e não parava de falar? Eis um mistério que levo comigo a oito anos. Talvez um dia eu tenha a resposta pra tudo isso. Quem sabe...
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